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17 de outubro de 2010

Mestre Domingos Catritas

ciclo do Mar
série  O Mar da Póvoa do Mar
Acrílico, Carvão e Grafite s/ tela
80x100
ano de produção 2010
em coleção particular




Todo o Ciclo do Mar  é dedicado à Memória de meu avô

Domingos Filipe Nunes, o Catritas.

Convivi pouco com o meu avô mas foram anos profícuos e determinantes para a minha formação.
Recordo o seu porte altivo sem arrogância, a sua atitude rigorosa sem severidade, a sua sabedoria serena e consistente.

No tempo antigo do antigamente, o pescador era pouco letrado. Analfabeto era o mote. Mesmo assim conseguiu fazer a 4ª classe, altura de ir para o mar.

O que sempre me impressionou nele foi a sua ânsia de saber: lia tudo o que lhe aparecia à frente como uma gulodice dos céus. Talvez eu tenha dele herdado essa necessidade vital.  Tinha uma caligrafia que eu, candengue ainda, achava maravilhosa. E era mesmo.

“Vivia paredes-meias com o mar. Dormia e sonhava com ele. Quando na tropa lhe perguntaram onde nascera, mestre Domingos ingenuamente respondeu: no mar da Póvoa.” 1

Mas não era ingénuo - ou apenas por humildade o era - antes orgulhosamente consciente, quando afirmava - e tantas vezes o ouvi assim falar – que ”Póvoas há muitas, mas a minha é a Póvoa do Mar!” 2

A vida foi-lhe madrasta inúmeras vezes e muito haveria que contar do meu avô mas um dos episódios para mim mais marcantes, que me foi contado de boca a ouvido porque ele não gostava de o referir - na sua versão completa - quando era adolescente e estive temporariamente cá na Póvoa do Mar, é o seguinte:

“Em Porto Alexandre foi mestre da motora Carminha. Certo dia, regressando da faina da pesca, à entrada da barra, viu-se apanhado por violento temporal. 3 O barco naufragou com sete negros a bordo – toda a tripulação. Mestre Domingos,
na água, lutando obstinadamente contra um temporal desfeito, conseguiu salvar todos os homens. Um por um trouxe-os para terra. Quando chegou, foi alvo das
maiores homenagens por negros e brancos. Levaram-no aos ombros. Beijavam-no de contentes. Cobriram-no de honrarias. Mais tarde, cansado e desiludido, embarcou para a Metrópole. Partiu pobre, chegou mais pobre ainda.” 4

O que falta contar é que, não obstante as honrarias, meu avô foi exprobado por alguns brancos:
- Mestre Domingos, porque é que se esfalfou com os pretos? Porque não os deixou ir até ao Pinda, com a correnteza?!

Ainda hoje consigo vislumbrar a indignação que lhe vi no olhar enquanto me contava este pormenor desconhecido da história. “Sabes por que motivo os salvei?” E sem esperar por resposta minha, “Porque também eles são gente!”

Também a revolta constante contra a injustiça a herdei de meu avô.
Obrigado por tudo, Mestre Domingos Catritas.


Sobre o quadro:

No mapa estão traçadas as rotas que levaram meu avô a outras Pátrias.

No salva-vidas “Cego do Maio”, de que foi Patrão, cumpriu a sua última tarefa de lobo-do-mar. Este barco foi desenhado a partir do original que se encontra no Museu da Póvoa. Por isso decidi manter o erro que ostenta na proa, a bombordo (correcto a estibordo): as cores da Bandeira Nacional, no interior da esfera armilar, estão invertidas.

A sigla representada, “lanchinha, dois piques e um por riba”, era a sua Marca.



1.  AZEVEDO, José de. Homens do Mar da Póvoa, e.a., Póvoa de Varzim, 1973, p. 88.   
2. Inspirei-me nesta sua expressão para o título da série “o Mar da Póvoa do Mar”.
3. O autor quer referir a entrada da baía de Porto Alexandre e o temporal era a calema.
4. AZEVEDO, ob.cit. p. 90.

1 comentário:

MasterTrip disse...

eu peço desculpa mas gostava de saber de qe parte é que é seu avo e quem é seu pai,é que pelo nome nao estou a ver de quem é filho....