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17 de outubro de 2010

Marcas Poveiras



ciclo Iconografia Poveira
Acrílico s/ tela
70x50
ano de produção 2010


Os pescadores poveiros dos tempos de antanho, da época em que o analfabetismo grassava no país, inventaram uma forma própria para marcação dos seus pertences.

Essa sorte de escrita, hoje em desuso, tem semelhanças com os hieróglifos egípcios já que é representada por objectos - relacionados com o mar e a sua faina. São as Marcas Poveiras e a sua leitura é inteligível por toda a comunidade piscatória, tal como os letrados lêem o alfabeto comum.

Essas Marcas, também chamadas Siglas, são apostas nos componentes dos barcos e em todos os apetrechos da faina, mas também no mobiliário caseiro – mesas, cadeiras e outros móveis e utensílios.

A base da escrita é o “Pique” – um golpe a direito (usualmente as Marcas talham-se a navalha) ou traço simples –  que, combinando-se, compõe o restante “alfabeto”. A única excepção é a “Lanchinha” que pode ser representada por linhas curvas.

A formação das Marcas tem regras próprias e inicia-se com o chefe de família. O primeiro filho acrescenta um Pique à Marca do pai, o segundo dois, o terceiro três, quatro o quarto e assim sucessivamente. O último filho, o mais novo portanto, herda a Marca de seu pai.

A escrita é bastante criativa: o conjunto dos Piques dos filhos pode formar outras siglas. Assim, por exemplo,

  o segundo filho de um pescador, cuja Marca seja uma Lanchinha, tem como Marca sua “Lanchinha e dois Piques” ou “Lanchinha e Cruz”;

  o terceiro filho terá “Lanchinha e três Piques” ou “Lanchinha e Estrela”;

  o quarto “Lanchinha e quatro Piques” ou “Lanchinha e Grade de quatro Piques”;

  o quinto “Lanchinha e cinco Piques” ou “Lanchinha e Sanselimão”.

As Marcas não são exclusividade dos homens. Também as mulheres que sejam proprietárias de barcos ou redes têm direito a usar Marca, seguindo as regras consuetudinárias.

No quadro estão as seguintes Marcas (da esquerda para a direita e de cima para baixo):

  Pena, Grade de cinco piques, Sanselimão1, Coice2, Pente;
  Lanchinha, Sarilho3, Dois piques a prumo e um por riba, Cálice aberto;
  Pé de galinha, Cálice fechado, Calhorda4, Estrela de rabo e Pique, Padrão, Estrela;
  Estrela de rabo, Quartos, Lanchinha, Mastro e Verga içada, Cruz;
  Arpão, Lanchinha e Grade de quatro Piques, Estrela e dois Piques e um por riba,  Lanchinha, Cálice fechado e Arpão com dois meios Piques, Coice e três Piques.


1. Signo de S. Solimão.
2. Parte da popa do barco onde estão fixadas as ferragens por onde se enfia o leme.
3. Artefacto de formatação cilíndrica, geralmente de madeira, para enrolar e desenrolar linhas, cordas e cabos.
4. Barco inestético ou mal construído.

1 comentário:

ailedazav disse...

Adoreiiii... Hoje aprendi mais "marcas". Felicidades p Ti, AmiGão!!! Mtos sucessos neste teu trabalho criativo. Bjão